Friday, January 19, 2018

Recomendação para ontem: Fábio Durão

Quer ler algo relevante vindo da universidade, algo que seja inteligente e contundente sem ser hermético e bruto? Recomendo ler o que escreve Fábio Durão, professor da UNICAMP. Além de livros muito bons como Fragmentos Reunidos e TEORIA (LITERARIA) AMERICANA: UMA INTRODUÇAO CRITICA, vários dos seus artigos estão disponíveis na página dele no saite Academia. Eis dois trechos de dois desses artigos:

"Quem usa o conceito de Bildung como se ele estivesse disponível, como se ele pudesse ser usado agora, vai estar cometendo um erro sério, um erro que na área de Letras é muito fácil de ser cometido, e que se refere à cegueira em relação ao novo. [...] Pois bem, qualquer abordagem da questão da formação, tem assim que reconhecer a natureza eminentemente antiquada dessa problemática. Daí a minha tese, de que o problema da Bildung não tem nenhuma atualidade hoje. Tudo aquilo que a formação indica (conhecimento, uma subjetividade forte para poder discernir e criticar, instituições capazes de transmitir uma tradição educativa viva) – tudo isso já está há muito tempo fora de questão, morto. E só não vê isso quem não quer, ou não tem coragem."
De "Sobre a relevância dos estudos literários hoje"

"Embora não haja imbecilidade sem pessoas, não são elas que, a rigor, a criam, porque, é óbvio, a criação de algo requer alguma espécie de inteligência. A burrice é mais produtivamente abordada, não como resultado das ações da pessoa, mas como estrutura, um dispositivo subjetivador; nesse sentido, ela pode estar entranhada nas instituições, pois, como pelo menos já desde Althusser (1995) sabemos, estas transformam indivíduos em sujeitos."
De "Burrice acadêmico-literária brasileira".  


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Tuesday, January 09, 2018

Dansando com a ortographia dos meus paes e avós

Queria experimentar a leitura de um livro de contos como ele foi publicado na seleção e ordem escolhidas pelo editor e seu autor [um certo Machado de Assis] quando ele tinha 45 anos. Acabei de ler sem qualquer dificuldade um livro de 286 páginas de 1884, em sua primeira edição. Fiquei pensando no estupor daqueles que tem um ataque cardíaco cada vez que alguém troca um s por um z ou aqueles que vivem se lamentando cada vez que uma reforma ortográfica muda algum acento.

E como era a ortografia em 1884? Mais ou menos o oposto da ortografia atual no uso do s, z, dois ss e ç, sem acentos nas proparoxítonas, com vários es e is também invertidos [pae e mãi, por exemplo] e em outros detalhes interessantes que reuni nessas frases juntando cacos do livro:

Ella veiu sósinha aqui em caza estudar sciencia. Chimica é o meu forte.
O bond estava vasio á hora da sésta, então arripiei caminho.
Ela dansou, ele puchou os bigodes.
Meu pae e minha mãi viveram dois mezes socegados longe de pessoas extranhas.
Já não são creanças; estão na edade do matrimônio.
Peior fregueza da loja queria dois assucareiros azues de Hespanha.
Vae á botica tambem, mas scismou de passeiar nas larangeiras antes.
Andava ancioso de um logar para o outro, até que o canssaço apareceu no horisonte.
A auctoridade poz-se á espreita um longo praso e só interveiu quando ele cahiu de costas
Queria gosar um pouco, mas escorreguei doudo com uma estremeção de prazer.
Jámais supuz ouvir barytono egual.
Poz-me uma condição: não fugir á realidade e faser pesquizas sobre o mysterio.

Apesar daquele argumento de que abolir o y, o ph e os ll duplos teria facilitado o trabalho de alfabetização, percebo como não-especialista uma certa futilidade em fazer reformas ortográficas e fico me perguntando de onde vem essa nossa mania no português.


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Ao mesmo tempo sinto mais agudamente o ridículo do apego que meus companheiros de geração demonstram ter por certas formas de soletrar e acentuar palavras, regras que não têm sequer cem anos de idade. Para não dizer nada sobre aqueles que têm um ataque histérico ao menor sinal de um erro ortográfico.