Monday, April 24, 2017

Poema meu: 4 Proposições sobre o par Anxietas/Depressio ou o Acidente

Desenho meu: Auto-Retrato
4 Proposições sobre o par Anxietas/Depressio

A ansiedade espreme e acelera até que explode:
é o maquinário do corpo batendo pino.
A depressão sufoca e refreia até que implode:
é o maquinário do corpo fundindo o motor.

A ansiedade é uma espiral centrífuga que aponta para cima
e se sente no corpo como pressão,
a depressão é uma espiral centrífuga que aponta para baixo.
e o corpo a sente como a imersão num nada opaco e viscoso.

A ansiedade é uma contingência que ara o corpo
no qual a depressão semeia a sua morte em vida.
A ansiedade é uma substância que derruba o tronco
onde o cogumelo frio da depressão viceja.


A duas expressam e se alimentam
da pressão constante, dentro e fora,
da razão surda da produção
e da emoção cega do consumo.



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Sunday, April 16, 2017

Seder, Páscoa, Primavera, Equinócio

Brotos trancados no inverno, esperando a morte passar
Aqui no hemisfério norte, em latitudes mais temperadas, o sol fraquinho do inverno "morreu" justinho dentro do cruzeiro do sul e "renasceu" agora forte e semi-tropical. 

A natureza responde esplendorosamente à altura: em poucos dias os brotinhos das árvores peladas, que passaram meses e meses esperando o frio passar, se abrem verdinhos. O chão duro e seco do inverno se descongela de todo finalmente e da terra úmida brotam feito um milagre um monte de plantas que tinham aparentemente "morrido" no final do outono, mas que na verdade hibernavam subterrâneas durante o longo inverno de quase seis meses.


Tulipas são as primeiras a sair da terra.
Antes da chegada do verão já estarão "mortas"
debaixo da terra outra vez.
Os quase dez anos que vivi nessas alturas me ensinaram a observar a natureza e a aproveitar momentos como esse que marcam a possibilidade de passar longas horas no jardim e no quintal da minha casa cuidando das plantas e assistindo à natureza fazer o seu trabalho. Além da compreensão mais rasteira que temos muitas vezes da vida e da morte, essa experiência me fez entender de verdade, com todos os sentidos e com as dedos sujos de terra, que existe realmente um ciclo de morte e ressurreição, que a história de Jesus Cristo não é apenas uma historinha absurda, uma lorota que mobiliza multidões. As coisas morrem e ressuscitam todos os anos. Os passarinhos voltam, os bandos de corvos se separam e se dispersam, sapos e insetos reaparecem. 

Quantas vezes eu mesmo não morri e ressuscitei até hoje? Quantas vezes mais morrerei e ressuscitarei em mim mesmo e nos meus filhos e em outras pessoas que amei e odiei?  


Tuesday, April 04, 2017

Música: do Belo Horror em volta de uma privada às Asas de sorvete

Dois mineiros, um pernambucano e um carioca com fortes raízes cariocas, todos muito jovens, se reuniram no Rio de Janeiro em 1973 para gravar um disco que quase não foi divulgado e era impossível de se encontrar antes da era digital/internética. Sem apoio da gravadora para fazer quatro discos separados, a ideia era juntar forças num disco dividido em quatro. Aí nesse disco mal-conhecido gravou-se a primeira versão de "Manuel, o audaz" de Toninho Horta e Fernando Brant e "Ponta Negra" de Danilo Caymmi e João Carlos Pádua.

Uma das minhas favoritas nesse álbum é "Belo Horror" do lote de Beto Guedes. Na faixa fica claro que Beto Guedes e amigos andavam ouvindo os primeiros discos do Genesis e Yes, mas a coisa não fica no pastiche por causa da letra do Márcio Borges, que contrapõe Montes Claros [cidade natal do Beto e uma das cidades principais de uma região culturalmente riquíssima e financeiramente paupérrima] e a fatídica Belo Horizonte para onde iam padecer o céu/inferno urbano to mundo de todos os cantos de Minas Gerais. O clima da canção é de um pesadelo em que o mato da terra natal é guardado em segredo num ambiente hostil de cidade e proclama o desejo da "palavra errada" e da "hora certa de entortar".
Como outras faixas desse disco quase desconhecido, "Belo Horror" foi regravada bem mais tarde. Em 1999 no álbum Dias de Paz, "Belo Horror" virou "Asas", com algumas mudanças significativas na música e com a letra também bastante modificada. Agora "Caminhar não tem segredo" e o eu da canção anuncia que sabe voar e criar asas.

Aqui está claramente a diferença entre um primeiro momento do Clube da Esquina no começo dos anos 70 e o que veio depois. Entre a contracapa com o bando de cabeludos reunidos em volta de uma privada em 1973 e a capa com uma espécie de sundae musical feito no computador em 1999, alguém entornou um pote de açúcar nas letras e uma colher de glacê nos arranjos.

Essa doçura e esse brilho me incomodam um pouco, como me incomoda um pouco aquela tendência a uma certa "alegria tra-lá-lá" de certos patos e barquinhos da Bossa Nova e da MPB. Escuto e aprecio algo dessa produção, mas já não tanto.


Belo Horror
[Beto Gudes / Flávio Venturini / Vermelho / Márcio Borges]


Belo Horizonte,
Monte claro, meu segredo,
marcado pelo som que vem do mato.

Mato horizontes,
fundo claros contra o medo
e nada tenho a ver.

Quero a palavra errada,
quero a hora certa de entortar.

Meu amor, Montes Claros.
Belo horror horizonte.
Céu sem dono
Mal começa a clarear...



Asas
Vim de muito longe
Caminhar não tem segredo
Eu trago a formação que vem do mato

Fundo horizontes
Me elevo contra o medo
E faço amanhecer

Todo azul que tem na terra
Pássaro de ouro a voar

Sei voar crio asas
com o som.
Destas cordas crio mundos
para você se habitar.

Friday, March 31, 2017

Memórias da sala de aula: sobre os usos possíveis da meta-história

Me marcou muito certas leituras que fiz de Hayden White nos meus tempos de aluno, particularmente o momento em que enfurece os historiadores com aquele enquadramento de grandes clássicos da disciplina no século XIX num esquema de análise de gêneros literários no seu Metahistória. Desde então, com certas adaptações à teoria de gêneros dele [prefiro usar a farsa no lugar da sátira] e sem aquela empáfia quase-formalista que White tem para com a história, tenho feito usos variados de algumas ideias dele.

Tenho ensinado aos meus alunos em diversas oportunidades que eles devem se aproximar não apenas de literatura e do cinema de ficção mas também de textos jornalísticos e/ou científicos com um olhar atento para o gênero que é escolhido ali e nas implicações que essa escolha tem na visão geral do mundo que fica subjacente naquele texto.

Também às vezes aproveito para um exercício mais arriscado, bom para praticar protegido pela impunidade da sala de aula [aquele lugar de onde ninguém se lembra de nada duas semanas depois, além do professor]. Trata-se de uma pequena provocação: um exercício  de comparativismo cultural entre Brasil, Estados Unidos e México [meus alunos geralmente tendem a gravitar entre essas três culturas] . Digo a meus alunos que, em termos bem gerais, a história nos Estados Unidos é contada/compreendida pela chave da épica, no
Niños Héoes
México pela chave da tragédia e no Brasil pela chave da farsa. Nos três países essas escolhas não são vistas como tal, e sim como consequência lógica/natural "do que aconteceu de fato", e aí eu venho com aquela coisa incômoda de Hayden White de ver a narrativa organizando de forma particularizada a matéria prima da história, refletindo desejos/tendências culturais, pelo menos parcialmente inconscientes às
Titus Kaphar, "The Myth of Benevolenve"
vezes. Jefferson, um escravocrata dotado daquele infalível sadismo/racismo estrutural, meio pernóstico na sua idealização de um suposto espírito democrático do Anglo-Saxão desde as mais priscas eras e francamente ridículo na hipocrisia de suas "duas famílias" se transforma num heróico arauto da liberdade e das luzes para o mundo inteiro. Dom João VI, aquele tirano violento e indiferente à injustiça, vira um gorducho palhaço bufão casado com uma manca histérica, quase atirando abacaxis e bacalhaus da sacada do Paço feito um Chacrinha/Trapalhão que supostamente "gostava da bagunça do Brasil". No México, entre centenas de batalhas ganhas e perdidas, os reais heróis são sempre mártires desde a independência até a imagem de um punhadinho de soldados/meninos imberbes que cometem uma espécie de suicídio em nome da pátria ao decidir enfrentar sozinhos um batalhão inteiro de invasores sanguinários.

Finalmente, costumo usar Hayden White para advertir meus alunos que eles mesmos constroem narrativas todos os dias, mesmo nas conversas mais banais, sempre que contam alguma coisa que aconteceu a um amigo, namorado ou familiar. Nessas narrativas frequentemente eles mesmos figuram como protagonistas e, em nome do autoconhecimento valeria a pena registrar e depois examinar essas narrativas com que eles se constroem para si mesmos e para os amigos, com olho vivo para o predomínio de um ou de outro gênero.

Wednesday, March 29, 2017

Filme argentino: La mirada invisible

La mirada invisible é um filme dirigido por Diego Lerman [diretor ainda jovem de grandes filmes do cinema argentino] e lançado em 2010. É um dos melhores filmes sobre a ditadura argentina, mais especificamente sobre o seu fim, no período das Malvinas e de Leopoldo Galtieri, que aparece brevemente na televisão da casa da protagonista. O script se baseia no romance Ciencias Morales de Martín Kohan [1967], livro que ganhou o importante prêmio Herralde de 2007.
O filme é quase todo centrado na rotina sufocante de um Colegio Nacional de Buenos Aires fundado por Bartolomé Mitre, onde tudo gira em torno do conceito de ordem. Nem uma lapela fora do lugar no uniforme dos alunos passa pela vigilância constante de um exército de inspetores que auxiliam os professores. Um grupo imenso de adolescentes mal se contendo num clima pesado, onde nem um fio de cabelo ou uma meia abaixada, nem uma tossida ou um risinho, nem uma revista de quadrinhos muito menos um beiijnho no corredor é permitido.
Lá de fora ouvimos as batucadas que marcam os protestos de rua de uma Argentina farta das loucuras dos seus generais celerados; ficamos com a câmera aqui dentro, onde o hino nacional é cantado como uma espécie de canção fúnebre que celebra a morte de quem canta. O filme é profundamente político sem nenhum eloquente discurso explicativo sobre lutas políticas nem de grandes menções sobre figuras importantes da época. A única voz é a da repressão. Dentro do colégio ninguém resiste explicitamente. Os meninos são repetidamente autuados e punidos pelas falhas mais mínimas. O conformismo impera.
A protagonista é uma jovem inspetora da escola, obviamente produto desse caldo de opressão, um poço fundo e escuro de silêncio e repressão que agora se dedica a manter a ordem. Ela tenta impressionar o inspetor chefe que chegou à escola no início do regime militar e era conhecido por ter fornecido ao aparato sinistro do Proceso de Reconsctrucción Nacional listas de "alunos subversivos". O filme não se cansa de mostrar a protagonista de perto e Julieta Zylberberg corresponde com uma atuação contida mas brilhante para um papel difícil por trafegar num território já demarcado por clichês antigos do melodrama e da comédia: a mulher sufocada por repressão à beira da histeria. Sufocada, Maria Teresa mergulha na repressão com empenho de quem quer ser o melhor da classe, mas o desejo sexual/afetivo subverte o desejo de repressão, que não caminha para uma libertação [que seria outro clichê] mas para a perversidade. A vigilância vira então em parte disfarce para um silencioso e torturado voyeurismo que a inspetora tem dificuldades em ocultar. Maria Teresa espreita e depois se esconde no banheiro dos homens com a desculpa de buscar descobrir alunos que fumam escondido na escola e ali dentro arde de desejo doloroso por um dos alunos que ela espreita obsessivamente.
Diretor e atores trabalham juntos para trafegar nesse terreno minado e fazer algo diferente do comum. É muito baixa hoje em dia a tolerância para com o que é diferente do comum no cinema [e entenda-se comum aqui como o tratamento habitual de Hollywood ou da televisão para tudo da linguagem do audio-visual, do script à atuação, passando pela iluminação e trilha sonora]. Também é muito baixo o nível do discurso que discute a política nesses meios e nos meios de comunicação, incluídos aí as redes sociais. Para quem requer "socos no estômago" e "porradas na cara" como recursos retóricos para discutir a política, o filme nem sequer vai registrar como filme político. No meu entender, o filme desvenda de maneira profunda todo o discurso da ordem que marca a extrema-direita moralista de cariz cristão de Franco a Bolsonaro. Inclusive quando, sem grandes surpresas o chefe dos inspetores estupra a sua pupila mais apreciada no mesmo fatídico banheiro. A vítima não deixa barato a truculência do agressor e o gesto final mostra coragem frente à dificuldade em se livrar do ferrolho abusivo da Ordem.

Friday, March 24, 2017

Miroslava Breach, Patricia Acioli, Ayotzinapa, Cabula e Valdomiro Costa Pereira e muitos outros




O México e o Brasil andam pelo mesmo caminho que muitas outras partes do mundo globalizado: longe das manchetes principais da imprensa, mensalmente, talvez semanalmente, alguém é preso, torturado, desaparecido ou assassinado em conflitos marcados pelo total desrespeito aos direitos humanos e da cidadania. 

As vítimas são indígenas, sem-terra, sem-teto, moradores de comunidades marginalizadas, crianças pobres, membros de várias minorias e de organizações que lutam pelo respeito aos direitos dessas pessoas, desde ativistas a promotores, juízes e jornalistas. E os criminosos caminham quase sempre numa linha imprecisa entre o crime organizado e os aparelhos de repressão do estado.

Mensalmente, talvez semanalmente as mortes e abusos vão se acumulando e formando na minha cabeça uma daquelas terríveis, assustadoras de pilhas de corpos dos campos de concentração nazista. Um discurso furioso de ódio que divide o mundo entre gente de bem e inimigos que merecem nada além da completa aniquilação alimenta o grande moinho de moer gente. E as pautas da grande imprensa continua a colocar no centro das atenções essa grande farsa em que grandes personalidades continuam arrotando verdades sobre a defesa do estado de direito e da democracia enquanto o crime organizado, os grandes negócios, a justiça e a classe política vão se fundindo numa grande sopa cáustica.








Friday, March 17, 2017

Obituário: Derek Walcott

Foto minha: Espelho d'água
Encerramento
Derek Walcott


Eu vivo sobre as águas
sozinho. Sem mulher nem filhos.
Circulei todas as possibilidades
para cheguar a isto:

uma casa baixa perto da água cinza,
com as janelas sempre abertas
para o mar parado. Não escolhemos essas coisas,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, passam-se os anos,
baixamos a carga mas não a nossa precisão

de estorvos. O amor é uma pedra
que se acomoda no leito do mar
debaixo da água cinza. Agora nada quero

da poesia além de sentimento verdadeiro,
nem piedade, nem fama, nem cura. Esposa silenciosa,
podemos nos sentar e assistir a água cinza,

e numa vida inundada
com mediocridades e lixo,
viver feito pedras.

Eu desaprenderei a sentir,
desaprenderei meu dom. Isso é mais
e mais difícil do que o que aí se passa por vida.


Acesse o original e outra tradução aqui.
Comentei brevemente sobre o poema e a tradução aqui.